Silepse

Por Leticia Gomes Montenegro

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Categorias: Linguística, Português
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A palavrasilepse” é originária do grego sýllepsis, que significa “ação de reunir”, “ação de tomar em conjunto”, também pode ser entendida como a ação de compreender.

Ou seja, a silepse é a figura de sintaxe que consiste em uma concordância não fundamentada nas regras gramaticais da língua, e sim com uma concordância ideológica dos sentidos que as palavras expressam, ou ainda com o sentido que as relações entre elas revelam.

Conforme a concepção do termo, silepse referia-se somente à concordância de numero. Contudo, como a língua configura-se como um organismo vivo, as variações linguísticas a colocam em processos de transformação, e agregaram outras formas de construção sintática com as concordâncias de gênero e pessoa. Em resumo, a silepse abarca praticamente todo o campo da concordância, tomando como princípio o aspecto ideológico da língua, e não a perspectiva gramatical.

Silepse de número

1) A Silepse de número pode ocorrer com todo substantivo singular compreendido como plural, pelo falante, e, em particular, com os coletivos dos nomes. A incidência desta silepse aumenta à medida que o verbo se distancia do sujeito coletivo. É mais recorrente quando o coletivo está elíptico (subentendido) na oração, assim:

A população manifestou-se contrária as mudanças políticas, foram às ruas e entoavam o hino nacional.

Após acidente de carro, a família saiu do hospital, estão bons.

2) Quando o sujeito de uma oração é um dos pronomes “nós” ou “vós” referindo-se a uma só pessoa, e os adjetivos ou particípios a que eles estão ligados permanecem no singular, ocorre silepse de número, da seguinte forma:

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Silepse de gênero

Os termos utilizados como forma de tratamento “vossa majestade”, “vossa excelência”, “vossa senhoria”, e similares a esses, apresentam-se sob o gênero feminino, porém são usadas com regularidade para pessoas do sexo masculino. Neste caso, quando funciona como predicativo, o adjetivo que a elas se refere vai sempre para o masculino, quando deveria concordar com a forma de tratamento e não com a pessoa a quem a expressão está-se referindo:

Por exemplo, quando um juiz é um homem e usa-se a expressão “Vossa excelência”, mas completa-se a oração com palavras no masculino.

Vossa excelência é muito justo, cumpre com as normas e as leis.

Silepse de pessoa

1) Quando a pessoa do discurso se inclui num sujeito enunciado na terceira pessoa do plural, o verbo pode ir para a primeira pessoa do plural, exemplo: “Esquece esse problema, que ainda havemos de ser realizados os dois, com a nossa família e trabalho".

2) Quando o sujeito expresso na terceira pessoa do plural abrange a pessoa a quem o falante se dirige, é lícito usarmos a segunda pessoa do plural. Exemplo: "Todos falais em me julgar e condenar".

3) No português popular europeu, brasileiro e de países africanos de língua portuguesa, é comum a palavra “gente” transpor o verbo para a primeira pessoa do plural. Exemplo: "A gente necessita realizar uma tarefa bem elaborada para verem que somos grandiosos".

Observação: para alguns gramáticos essa variação da língua se constitui como um desvio da regra, e não como uma elipse.

Outra aplicação do termo "silepse"

Em estudos da narrativa, também conhecido por narratologia, o termo “silepse” é usado para conceituar o processo de sintetizar o discurso, apresentando de um modo reduzido vários eventos associáveis através de um recurso qualquer de aproximação temporal, espacial, temático.

Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

Koch, Ingedore Grunfeld Villaça. A inter-ação pela linguagem. 5 ed. – São Paulo: Contexto, 2000 – Coleção: Repensando a Língua Portuguesa

Reis, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo: Ática, 1988.

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